quarta-feira, 2 de maio de 2012

A concordância sumiu ou evoluiu? | Revista Língua Portuguesa


Um belo artigo. Vale a pena ler.


Retirado de: http://revistalingua.uol.com.br/textos/76/a-concordancia-sumiu-ou-evoluiu-250586-1.asp



A concordância sumiu ou evoluiu?

Há casos em que o sujeito se divorcia do predicado, e cada um escapa para um lado

Josué Machado


Um dos enganos mais frequentes dos que tentam se comunicar segundo o código da norma culta ocorre no campo da concordância verbal quando o predicado aparece antes do sujeito. Principalmente quando estão distantes um do outro, separados por um recheio qualquer. Então o predicado desliza para um lado, e o sujeito escorrega para outro em espetacular dissonância.

Claro que isso é muito mais frequente na expressão oral do que na escrita e há indícios de que já está incorporado à fala brasileira mesmo da elite culta. Mas ocorreu no texto de um editorialista em página nobre de jornal.

Sabe-se que os responsáveis por editoriais são jornalistas um tanto mais experientes do que a maioria dos iniciantes mal escolarizados e pouco rodados na vida e no jornalismo. No entanto, acontece e pode acontecer com qualquer pessoa que tenha de escrever depressa, sob a urgência ou não de um "fechamento", como se chama no jargão jornalístico o acabamento dado ao material antes que ele vá a público. Parece ter sido esse o caso registrado no seguinte trecho:

"A inflação tende a seguir suave e moderadamente em direção ao centro da meta - mais provavelmente no início de 2013 do que no fim de 2012. Está fora do horizonte da equipe as pressões que possam comprometer essa estratégia."

"Está fora do horizonte da equipe as pressões...", escreveu ele distraído ou sonolento, perturbado pelo complemento "fora do horizonte da equipe" (entre o predicado e o sujeito).

Distração Se a ordem fosse direta, jamais o escriba teria escorregado dizendo que o sujeito "pressões" "está" fora do horizonte da equipe. O que pode ter ocorrido para tão distraído escorregão?

Um corte de última hora para acertar o tamanho do texto, por exemplo. Talvez - apenas hipótese -, talvez ele tenha escrito inicialmente algo como "Está fora do horizonte da equipe otemor de pressões blá-blá-blá." Tendo de cortar algo, terá passado a foice no então sujeito "temor", deixando como saldo a antológica discordância "pressões está fora".

Daí a óbvia necessidade de ler e reler. De preferência, pedir a alguém que faça a leitura, porque em alguns momentos deixa-se de enxergar com clareza um ou outro detalhe do texto lido e relido.

Coisas da vida.
 
Falta de concordância pode ser o padrão oral brasileiro
A ausência de concordância em frases curtas muito recheadas por interrupções entre o sujeito e o predicado é um dos pontos gramaticais que unificam a fala de escolarizados a analfabetos brasileiros. Na expressão oral, a maioria lança o sujeito num número (plural/singular) que discorda do verbo que o complementa, quando ambos são separados por apostos e outras interpolações. Essa constatação se tornou uma evidência científica desde os anos 1970, quando foram iniciados o projeto Nurc (Norma Linguística Culta Urbana) e o Programa de Estudos sobre o Uso da Língua, reunindo os esforços de pesquisadores de universidades brasileiras. O Nurc permitiu a análise de mais de 1.500 horas de entrevistas gravadas em cinco capitais do país, e revela, entre outras coisas, que mesmo os brasileiros de nível universitário usam na fala variedades linguísticas em desacordo com o padrão do idioma. Os mais escolarizados têm sim maior cuidado com a concordância ao escrever, constatou o estudo. Ao falar, no entanto, a elite culta (que, afinal, representaria a base do padrão do idioma) já não age do mesmo modo e empata com o uso corriqueiro das variantes populares orais. (Luiz Costa Pereira Junior)

Nova regra?
Cometemos crime de lesa-língua quando dizemos "Passará o céu e a terra, mas minhas palavras não passarão", exemplo clássico das gramáticas? Sírio Possenti, nesta Língua, já questionou a formulação de que o verbo concorde só com o mais próximo elemento do sujeito composto, se posposto (após o verbo): "céu" e não "céu e terra". A concordância é fenômeno sintático, lembra o linguista da Unicamp. Só do ponto de vista semântico (ou pragmático) é que dizemos que o termo posposto (céu) é o sujeito. Mesmo quando o sujeito não é composto, o linguista notou a frequência com que se põe o sujeito posposto no plural e o verbo, no singular, como em "Já no 1o semestre, deveráter início as eliminatórias... (Folha de S. Paulo, 5/7/2002). Daí sugerir: "Talvez se possa propor uma regra parcialmente diferente da das gramáticas. O verbo não concordaria com o 1o nome do sujeito composto posposto. Simplesmente não concorda com nada. A razão? A posição típica de sujeito - antes do verbo - está vazia. É como se as orações não tivessem sujeito." A formulação da regra seria: "Quando não há sujeito, o verbo vai para a 3a pessoa do singular." É o mesmo caso do verbo sem sujeito de fato, o impessoal (Faz dez anos que saiu; Há bêbados aqui). Se Possenti estiver certo, o uso tem regularizado a concordância: ela estaria se tornando a mesma quando não há sujeito e quando só parece que não (com o sujeito fora de sua posição típica).


Josué Machado é jornalista, autor de Língua sem Vergonha (Civilização Brasileira, 2011)

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